A polilaminina é uma molécula sintética desenvolvida a partir da laminina, uma proteína natural do corpo humano envolvida na regeneração neural. Pesquisada há décadas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob liderança da bióloga Tatiana Sampaio, a substância ganhou destaque recente como potencial tratamento para lesões medulares graves, especialmente em casos agudos de paraplegia ou tetraplegia. Estudos preliminares em modelos animais e um piloto com humanos geraram expectativa, com relatos de recuperação funcional em alguns pacientes, mas a comunidade científica enfatiza que os dados ainda são iniciais e carecem de validação robusta por revisão por pares.
Um estudo piloto com oito pacientes humanos, realizado entre 2016 e 2021 em caráter experimental e com aval ético, serviu como base para divulgar os supostos benefícios da polilaminina. Nesse trabalho acadêmico, a substância foi aplicada em até três dias após o trauma medular, e os resultados sugeriram melhora em movimentos em parte dos casos, comparados a dados históricos da literatura. No entanto, o estudo não incluiu grupo controle randomizado nem placebo, o que limita a atribuição causal direta à molécula. Os dados foram disponibilizados inicialmente como pré-print (sem revisão independente), o que gerou debates sobre a solidez metodológica.
Recentemente, o manuscrito referente a esse estudo piloto foi submetido a pelo menos três revistas científicas internacionais e rejeitado em todas as tentativas. A própria pesquisadora líder confirmou a informação, destacando que as principais críticas dos revisores envolveram a dificuldade em explicar o mecanismo de ação preciso da polilaminina na medula espinhal e preocupações quanto à possibilidade de artefatos ou vieses metodológicos nos resultados observados. Essa rejeição não significa necessariamente invalidação total da pesquisa, mas reforça a necessidade de maior rigor científico antes de avançar em interpretações clínicas amplas.
A rejeição do artigo destaca um ponto crucial no processo científico: a publicação em periódicos revisados por pares é etapa essencial para que os achados sejam escrutinados independentemente e aceitos pela comunidade acadêmica. Enquanto a polilaminina avança para fase 1 de ensaios clínicos autorizados pela Anvisa (focada em segurança, com pequeno número de voluntários), especialistas — incluindo neurocirurgiões — pedem cautela na divulgação de resultados preliminares. A expectativa gerada nas redes sociais e na sociedade contrasta com a realidade de que, sem publicação validada e estudos controlados maiores, ainda não há evidência científica consolidada de eficácia da substância no tratamento de lesões medulares.