A pancreatite aguda grave é uma inflamação súbita e intensa do pâncreas que pode evoluir para complicações graves, como necrose tecidual, infecção sistêmica, falência de órgãos e até morte em casos extremos, com taxas de mortalidade variando de 10-30% dependendo da severidade. Causas comuns incluem cálculos biliares (responsáveis por cerca de 40% dos casos), abuso de álcool, hipertrigliceridemia, infecções virais e certos medicamentos. Recentemente, tem havido atenção crescente para a associação com agonistas do receptor GLP-1 (glucagon-like peptide-1), como semaglutida (Ozempic e Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro), usados para tratamento de diabetes tipo 2 e perda de peso. Esses fármacos mimetizam hormônios intestinais para regular glicemia e apetite, mas estudos e relatos pós-mercado indicam um risco raro de pancreatite, possivelmente ligado a mecanismos como aumento da produção de enzimas pancreáticas ou formação de cálculos biliares induzida pela perda rápida de peso. Embora grandes ensaios clínicos como SURMOUNT-1 não mostrem aumento significativo em comparação ao placebo, o uso amplo desses medicamentos tem levado a mais notificações de casos.
A associação entre pancreatite aguda grave e medicamentos como Mounjaro, Ozempic e Wegovy é considerada rara, mas bem documentada em folhetos informativos e alertas regulatórios. No Reino Unido, a MHRA (Medicines and Healthcare Products Regulatory Agency) atualizou orientações em janeiro de 2026 após registrar 1.296 relatos de pancreatite via Yellow Card Scheme entre 2007 e outubro de 2025, incluindo 19 fatais, muitos envolvendo esses agonistas GLP-1 ou duplos GLP-1/GIP. A incidência varia de 0,27% a 2,2% em estudos, e o aumento de casos reportados é atribuído à popularidade crescente desses injetáveis, com centenas de notificações de pancreatite aguda e crônica ligadas a semaglutida e tirzepatida. Um caso relatado envolveu um paciente que trocou de Ozempic para Mounjaro e desenvolveu pancreatite logo após a dose inicial, com elevação de lipase e achados em TC confirmando inflamação. Não há evidência de causalidade direta em todos os casos, mas fatores como perda de peso rápida podem contribuir indiretamente via cálculos biliares.
Os primeiros sintomas de pancreatite aguda grave associada a esses medicamentos geralmente surgem de forma abrupta e incluem dor abdominal intensa e persistente no centro ou lado esquerdo do abdômen, que pode irradiar para as costas e piorar ao deitar ou comer. Acompanhados frequentemente de náuseas, vômitos intensos, febre, taquicardia e distensão abdominal, esses sinais indicam urgência médica, pois a demora pode levar a complicações como pancreatite necrosante ou hemorrágica. Em usuários de Mounjaro, Ozempic ou Wegovy, sintomas gastrointestinais comuns como diarreia e náusea podem mascarar o início, mas a dor severa e contínua diferencia. Diagnóstico envolve exames de sangue (elevação de amilase e lipase >3 vezes o normal), ultrassom ou TC abdominal para confirmar inflamação e excluir outras causas. Estudos genéticos, como o do Yellow Card Biobank, investigam se variantes genéticas predispõem certos indivíduos a esse risco.
Para minimizar riscos, pacientes em tratamento com agonistas GLP-1 devem ser monitorados por profissionais de saúde, com orientação para relatar sintomas imediatamente e suspender o medicamento se houver suspeita de pancreatite. Recomendações incluem evitar álcool, gerenciar fatores de risco como hipertrigliceridemia e realizar check-ups regulares, especialmente em quem tem histórico familiar ou pessoal de problemas pancreáticos. Em casos confirmados, o tratamento envolve hospitalização, hidratação intravenosa, controle da dor e, em graves, suporte intensivo. Apesar dos benefícios comprovados para controle glicêmico e perda de peso, a decisão de uso deve equilibrar riscos e benefícios, com prescrição apenas sob supervisão médica.